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Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade reconhece organizações que preservam conhecimentos tradicionais; ECOARAUCÁRIA está entre as premiadas

  • há 4 dias
  • 6 min de leitura

Há saberes que atravessam gerações sem estarem escritos em livros. Vivem nas mãos que cultivam a terra, nos quintais biodiversos, nas sementes guardadas, na floresta preservada e na memória de quem aprendeu que produzir também é cuidar. Esses conhecimentos, por muito tempo invisibilizados, ganharam reconhecimento nacional na 2ª edição do Prêmio das Organizações Guardiãs da Sociobiodiversidade, promovido pelo Fundo Nacional para a Repartição de Benefícios (FNRB), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).


Realizada em Brasília, a cerimônia reuniu representantes de povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares de todas as regiões do Brasil. Ao todo, 323 organizações participaram do processo seletivo, número que praticamente dobrou em relação à primeira edição. Destas, apenas 50 foram reconhecidas por sua atuação na conservação da biodiversidade e na proteção dos conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético brasileiro.



Entre as organizações premiadas está a ECOARAUCÁRIA – Associação de Famílias de Agricultores Experimentadores em Agroecologia no Bioma da Floresta com Araucária, que conquistou o 8º lugar na categoria Agricultores Tradicionais, representando os sistemas tradicionais e agroecológicos de erva-mate e o trabalho desenvolvido por agricultoras e agricultores familiares que mantêm viva a relação entre floresta, produção e cultura.


Criado a partir da Lei nº 13.123/2015, que instituiu a política de acesso ao patrimônio genético e aos conhecimentos tradicionais associados, o Fundo Nacional para a Repartição de Benefícios busca garantir que parte dos benefícios gerados pelo uso da biodiversidade brasileira retorne às comunidades responsáveis por sua conservação. Nesta edição, foram destinados R$ 2,5 milhões diretamente às organizações premiadas, com R$ 50 mil para cada iniciativa reconhecida, consolidando o prêmio como um dos principais instrumentos de valorização da sociobiodiversidade brasileira.


Durante a cerimônia, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, ressaltou que a iniciativa representa um reconhecimento histórico aos povos e comunidades que sempre desempenharam um papel essencial na conservação ambiental.


"Trata-se de dar visibilidade e reconhecimento para brasileiras e brasileiros que nunca foram reconhecidos pelo papel que desempenham. Reconhecer a contribuição de povos indígenas, comunidades quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, na conservação, na produção e na inclusão social é fundamental. O Brasil é essa diversidade sociocultural que está aqui representada."



A ministra Marina Silva destacou que a premiação simboliza o reconhecimento de modos de vida que produzem conhecimento e preservam a biodiversidade.


"É uma pequena semente, um reconhecimento pelo modo de vida que produz saber, conhecimento e contribui para a proteção e o uso sustentável da biodiversidade."


Para a secretária nacional de Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente, Carina Pimenta, a expansão do prêmio demonstra o fortalecimento da política de repartição de benefícios no país.


"Esse prêmio representa um marco histórico. Em 526 anos, a repartição de benefícios sempre foi uma necessidade. E, finalmente, a partir do ano passado, com a reestruturação do Fundo Nacional, ela se torna uma realidade. E nós temos que proteger, assegurar e garantir que ela seja cada vez mais potente no reconhecimento e na promoção do uso sustentável da nossa sociobiodiversidade e da proteção dos conhecimentos, saberes e valores que estão associados a ela."


Também presente na cerimônia, o presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Jair Schmitt, ressaltou a importância da premiação para fortalecer o protagonismo das organizações que atuam diretamente nos territórios.


"É uma importante iniciativa de reconhecimento do trabalho de várias organizações, pessoas e lideranças, de reconhecimento dos povos e comunidades tradicionais para a conservação socioambiental nesse país."



Representante dos guardiões de conhecimento tradicional associado e integrante do Comitê Gestor do Fundo Nacional para a Repartição de Benefícios, Cristiane Julião Pankararu enfatizou que a premiação vai além do valor financeiro e fortalece iniciativas construídas pelas próprias comunidades.


"Conseguimos viabilizar os recursos do Fundo para essa premiação que é simbólica. Pode parecer pouco 50 mil reais, mas ele dignifica projetos e políticas nacionais não só para povos indígenas como para povos quilombolas. E esperamos que isso possa estimular outros coletivos sociais a construírem suas próprias políticas nacionais de gestão do território ambiental."


A cerimônia também reuniu a secretária-executiva do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Anna Flávia Franco; a secretária nacional de Gestão Ambiental e Territorial Indígena do Ministério dos Povos Indígenas, Ceiça Pitaguary; a ministra substituta da Igualdade Racial, Bárbara Souza; além de representantes do Comitê Gestor do Fundo Nacional para a Repartição de Benefícios e das organizações guardiãs da sociobiodiversidade de todas as regiões do país.



Para a ECOARAUCÁRIA, estar entre as Guardiãs da Sociobiodiversidade representa muito mais do que uma premiação. É o reconhecimento de uma trajetória construída por famílias agricultoras que fizeram da agroecologia, dos sistemas tradicionais de erva-mate e da conservação da Floresta com Araucária um modo de viver, produzir e cuidar do território. É também o reconhecimento de que os conhecimentos transmitidos entre gerações, o manejo sustentável dos ervais nativos, a proteção das sementes, das espécies da floresta e da biodiversidade constituem um patrimônio vivo do Brasil.


Mais do que reconhecer organizações, o prêmio reafirma que a conservação da biodiversidade acontece, todos os dias, pelas mãos de quem vive nos territórios, compreende seus ciclos e transforma conhecimento tradicional em cuidado cotidiano. Ao colocar a ECOARAUCÁRIA entre as 50 organizações guardiãs da sociobiodiversidade brasileira, a iniciativa também evidencia a relevância dos sistemas tradicionais e agroecológicos de erva-mate, da agricultura familiar e da Floresta com Araucária como expressões de um país que preserva sua diversidade biológica e cultural.


Em um tempo marcado pelas mudanças climáticas e pelos desafios da conservação, reconhecer quem protege a natureza é também reconhecer que o futuro nasce das raízes. Raízes profundas, cultivadas por gerações de agricultoras e agricultores familiares que seguem demonstrando que produzir alimento, conservar a floresta e preservar saberes tradicionais são caminhos que florescem juntos.


Representando a ECOARAUCÁRIA e os agricultores familiares tradicionais, Jaine Maize Vergopolem Wassmansdorf encerrou sua participação na cerimônia prestando uma homenagem ao pai, Bernardo Vergopolem, referência em sua trajetória e na defesa da agricultura familiar, reafirmando que as raízes cultivadas por quem veio antes continuam florescendo por meio das novas gerações.


A seguir, confira a íntegra do discurso da jovem erveira, agricultora familiar, ecologista e comunicadora Jaine Maize Vergopolem Wassmansdorf, que encerra sua mensagem com uma palavra de luta em homenagem ao pai, Bernardo Vergopolem, durante a cerimônia da 2ª edição do Prêmio das Organizações Guardiãs da Sociobiodiversidade, confira:


Cumprimento a todas e todos na pessoa da Deputada Federal e eterna ministra Marina Silva, e o Sr. Ministro Capobianco. Saúdo também cada guardiã e cada guardião que mantém a vida de pé, pulsando e vertendo nos territórios. Nós somos agricultoras e agricultores tradicionais. E afirmar isso aqui é um ato político. Porque cultivar é a nossa raiz — e raiz não se arranca, raiz sustenta. É da terra que vem o nosso saber. Não dos manuais, mas da experiência vivida e da difusão social. Do tempo da natureza vem o nosso ritmo. E da coletividade vem a nossa força para permanecer, porque ninguém resiste sozinho. As associações são os nossos brotos. Por vezes, pequenas no nome e fama, mas imensas na ação e resultados. São elas que organizam o território, defendem o que é comum e transformam a resistência em cuidado cotidiano.


Somos guardiões de sementes — sementes que carregam história, cultura e autonomia. Somos agrofloresteiros, agroecológicos e orgânicos. Somos apicultores, policultores, erveiros, e todas as ramificações da vida que insistem em brotar com consciência. Somos jardineiras e jardineiros da terra, guardiões de espécies ameaçadas de extinção, plantadores de água, de alimento e de futuro. Guardamos a diversidade que alimenta o presente e protege o amanhã contra a escassez, a crise e o esquecimento.


E que fique claro: nossos maiores frutos são as crianças e os jovens dos territórios. Que floresçam com identidade, cresçam com dignidade, perpetuem os saberes herdados e sigam espalhando a sociobiodiversidade como prática, como cultura e como projeto de país. Os pequenos produtores são a base de aproximadamente 70% do que chega à mesa dos brasileiros. Mas não há permanência sem condições reais de vida. A comercialização é a chave. Sem mercado justo, não há sucessão. Sem renda, não há território vivo. Por isso, o PNAE e o PAA não são favores. São direitos. Que devem permanecer. São políticas públicas necessárias para garantir a continuidade da agricultura tradicional. Assim, como premiações como esta, do 2° Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, que reconhecem e fortalecem a nossa caminhada, as causas que defendemos e as lutas que travamos diariamente. Esse reconhecimento é um começo, é agora que o trabalho começa para nos. E todo o nosso trabalho continua, e esperamos que cada vez mais enraizado a políticas públicas e ações de outras secretarias, governos e organizações.


Defender a educação do campo, as pedagogias enraizadas na terra, e incentivar as juventudes a se conectarem com seus territórios e defender o futuro.

A nossa agricultura é cooperação. É conexão com o meio ambiente, com a terra que nos sustenta, com o ar que respiramos, com a água que protegemos e fazemos brotar.

Nós seguimos aqui. Com raízes profundas, brotos firmes e frutos que alimentam o amanhã. Seguimos de pé, semeando todos os dias o nosso amor pela Mãe Terra. Eu sou Jaine Vergopolem, erveira, agricultora, ecologista, Me sinto muito grata por estar aqui representando os agricultores familiares e bom através da Associação ECOARAUCÁRIA.


Bernardo Vergopolem, presente!




Texto: Jaine Vergopolem. Imagens: divulgação.

 
 
 

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